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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Com saída de casa dos filhos, mães sofrem de síndrome do ninho vazio

Tristeza e falta de objetivos pela falta dos filhos podem causar depressão


Lívia Kriukas/Correio do Dia

Anos de dedicação cuidando, educando e criando os filhos, até que chega um dia em que eles caem no mundo em busca de viverem suas próprias vidas. Desejando o sentimento de liberdade em fazer o que bem entender. Assim segue o ciclo da vida. Em geral, isso é motivo de festa para os pais, pois começam a enxergar seus filhos como pessoas responsáveis e maduras, sendo capazes de dar sequência em seu destino, seja matrimonial, maternal, acadêmico, dentre outros mais. 

Mas, às vezes, o que deveria ser motivo de alegria pode se transformar em pesadelo para os pais. Aí é quando aparece a chamada síndrome do ninho vazio, causada quando a pessoa, em geral a mãe, vê seus filhos ganhando autonomia e saindo de casa. Por não conseguir lidar com isso, o sentimento de saudade acaba ganhando proporções prejudiciais à vida de quem fica. 

Na casa que antes era cheia de vozes, o silêncio passa a reinar, não tendo como evitar a partida daqueles que você criou com tanto carinho, mas que precisa tomar um rumo na vida. Diante dessa nova fase é preciso saber como agir quando a síndrome bater na sua porta. Além de manter um alto controle para que a depressão não se manifeste, antes mesmo de aceitar o crescimento dos filhos. De acordo com a psicóloga, Letícia Vargas, isso é comum entre as mães, uma tentativa de proteger o filho de tudo e de todos. Querendo fazer bem e muitas das vezes não percebem que acabam fazendo mal.

É preciso entender que a síndrome do ninho vazio é algo pontual e que tem hora certa para acabar. Pode haver uma base depressiva, mas a síndrome ocorre a partir de um evento, como a saída do filho de casa ou até mesmo a morte. E sua duração se estende do momento da separação até a inclusão de uma nova ordem familiar", explicou.

Entretanto, a falta de objetivos caracterizada pelo sentimento de tristeza que insisti em permanecer, pode ser transformada em depressão. Em casos de mulheres com 45 a 55 anos de idade, período onde frequentemente surge a menopausa, a mulher pode se sentir mais ainda com a auto-estima baixa, é o que ressalta a psicóloga. "O período do climatério, culminando com a menopausa, afeta a mulher. Ela sente-se envelhecida, sua função reprodutora não existe mais, sua auto-estima abaixa, a imagem que vê no espelho não lhe agrada e sente-se muito fragilizada emocionalmente".

Características da personalidade também interferem na forma como a separação é encarada. "As pessoas dramáticas sofrem mais, como em tudo na vida", afirmou Vargas. Ainda segundo o profissional, ninguém se prepara para uma separação, mesmo que ela seja programada. "Todos sentem, mas quanto melhor tiver sido a elaboração da separação, melhor as pessoas envolvidas vão lidar com a dor", concluiu.

O motivo do “por quê” o filho quer sair de casa também influencia. Aumentando a intensidade do sentimento da perda, justificou. "Se a separação for por bons motivos, como casamento, faculdade ou mesmo para morar sozinho, desde que os pais participem do processo, tudo é mais tranquilo e aceitável. Mas se for dolorosa, por causa de brigas ou morte, o sentimento de dor dura mais".

Enfim sós novamente, mais tempo livre para se dedicar a outros afazeres e para si mesma. Se no caso a vida dos pais não foi estruturada apenas em torno do filho, fica fácil seguir adiante na nova fase. A intenção é sempre olhar pelo lado positivo. Trabalhos, cursos, programas com amigos, e poder aproveitar o marido podem melhorar a vida.  Dar mais ânimo no relacionamento e no dia-a-dia, é o que argumentou Vargas. “Esse resgate de prazeres, vai depender muito se o casal cultivou a relação a dois durante toda a vida. Quase sempre a mulher tende a "abandonar" o parceiro quando tem seus filhos, dedicando-se somente a eles, colaborando para que a vida a dois não sobreviva até o período do esvaziamento do ninho".

Os filhos podem sim ajudar nessa fase, mesmo estando longe. Segundo Vargas, nessa fase é essencial uma inversão de papéis, onde os filhos precisam "consolar" os pais, principalmente a mãe, que no normal é mais sentimental que o pai. "Eles devem explicar para os pais que não deixou de amá-los e que esta é apenas uma nova fase em sua vida, e que o mais importante é a qualidade da relação e não a quantidade", aconselhou.

Mas os filhos mesmo criando uma forma de consolar os pais, ainda devem se atentar em não fazer promessas de mais, ou pelo menos que não irão conseguir cumprir, indicou. “Tudo o que o filho promete tem que cumprir. Este é um vínculo de honestidade. Muitos filhos falam que vão ligar todos os dias, que vão almoçar junto com os pais uma vez por semana, mas não concretizam essas promessas.  O certo é não falar o que você não vai cumprir". 

Apesar de estarem acompanhados de pessoas importantes, tais como outros familiares, parentes e amigos, Vargas ressalta que a pessoa com a síndrome se sente só do mesmo jeito. “A dor isola as pessoas. É muito comum elas falarem, ‘eu nem reclamo mais da minha dor. Não tenho mais crédito. Eu prefiro sofrer calado’. E isso também vai gerando outros tipos de sofrimento”, salientou.

Com os três filhos criados e morando fora, a professora Maria Aparecida Figueiredo, admite que na época quando os filhos saíram de casa ela ficou com coração despedaçado. “Meus três filhos saíram de casa cedo. O meu mais velho tem 33 anos, saiu de casa com 15 para trabalhar em Marcelândia. Minha filha atualmente tem 31, saiu de casa mais cedo ainda, com 14 anos para morar com o namorado, hoje ela mora no Maranhão. Já meu filho mais novo saiu de casa com 15 também e hoje, esta com 22 anos”, relembrou.

Segundo Maria, no começo foi muito difícil. Medos, preocupações, inseguranças tomaram conta de seu coração com a partida dos filhos. No caso de seu filho mais novo, Cleber Cristiano Romero, onde foi seu último sofrimento como mãe, ela ressalta que sabia já que ele queria sair de casa. “Ele sempre falava que quando termina-se o ensino médio, iria sair de casa para conseguir realizar os sonhos de trabalhar e estudar. Senti muita falta dele, pois ele é mais que um filho para mim é um companheiro. Muito dedicado e amoroso”, comentou.

Para Maria, as principais preocupações eram sempre de seus filhos acabarem se envolvendo com coisa ou pessoas erradas, frisou. “Medos e preocupações nós sempre temos, mas sempre fui aberta com todos eles. Com o Cleber eu conversava abertamente, procurei ensinar o que é certo e errado”.

Depois de morar nos municípios de Marcelândia e Vera, o filho mais novo de Maria, atualmente mora em Sinop. Trabalhando e estudando, o acadêmico de comunicação social com habilitação em jornalismo, entra em contato todos os dias com a mãe que mora na zona rural de Terra Nova do Norte. “Sai de casa, mas procuro manter contato sempre que posso, as vezes ligo três vezes por dia para saber como estão, as novidades e matar a saudade”, contou Cleber.

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